| Roda de Capoeira Angola no CEDIM - Setembro 2002
As voltas que o mundo dá têm sempre o seu lado poético. Assim, o encontro de Mulheres Angoleiras em abril de 2002 no Centro Cultural José Bonifácio, no Rio de Janeiro, permitiu uma visibilidade maior do trabalho das mulheres na Capoeira Angola. A Capoeira Angola carrega seu papel de luta contra todos os preconceitos, sociais, raciais e (porque não?), de gênero. Na sua gestação a capoeira surge de uma necessidade de dar uma voz aos negros que viviam sob o domínio do branco colonizador em terras estranhissímas, do outro lado do mar. Chegavam por aqui de diversas partes da África e se encontravam nos amontoados cortiços das zonas urbanas, misturando suas crenças, suas músicas, suas desilusões. Como o corpo sente, se uniram numa busca de expressão contra a opressão reinante e deram luz a essa obra de arte chamada Capoeira, que unia a todos em festas de dança e luta. Sua força era sentida por todos, tanto que por várias vezes tentou-se exterminá-la. Em vão! O preconceito é uma face muito ruim do homem, e vem sob diversas formas. O de gênero é sutil e cruel, já está aí no nosso dia-a-dia, naturalmente. Quem é que nunca viu uma mãe mandar a filha lavar a louça enquanto o filho só brinca e estuda? Nem a própria mãe percebe o que faz, vai repassando hábitos, formação cultural equivocada em um mundo que carece de igualdade. Na Capoeira Angola as mulheres encontram uma expressão corporal que fortalece. A arte aparece nos homens para melhorar, botar pra fora aquilo que precisa ser mostrado. É o inconsciente aflorando, necessidade da humanidade desde seu surgimento. Se essa busca por igualdade e liberdade, original da capoeira, deixar de existir, não será mais capoeira, muito menos a nossa Capoeira Angola. Pensando nisso tudo, ou melhor, fazendo isso tudo, a mulherada, vista por entidades que tratam da questão do gênero, foi convidada em setembro de 2002 para fazer uma Roda de Capoeira Angola no Espaço Cultural do CEDIM (Conselho Estadual dos Direitos da Mulher). Com nossa graça convidamos todos aqueles que nos ensinam muito, nossos queridos mestres e professores. Do Rio de Janeiro estavam quase todos lá, aqueles que não puderam comparecer, mandaram seus alunos (queridissímos também). Vieram mestre José Carlos (RJ), mestre Neco (RJ), mestre Braga (RJ, Dinamarca), mestre Rogério Soares (BH, Alemanha), mestre Zé Baiano, Cezinha e alunos (Caraguatatuba, SP), mestre Dominguinhos e alunos (São Sebastião, SP), representantes e alunos de mestre Raimundinho (São José dos Campos, SP), os professores Dirceu, Maurício, Bicicleta (RJ) e tantos outros. Foi uma roda e tanto, nem todos conseguiram jogar, tinha muita gente e a fila era grande para jogar com tantas mulheres, quem entrava não queria sair (onde ficou a sensibilidade?). Toda esta festa, que acabou em samba-choro e hip-hop, foi trabalho das capoeiristas Cristina, Sônia, Tereza, Cida, Fatinha, Danielly, Auíra, Tatiana, Gisele, Aurélie, Larissa, Karla, Louise... Aprendendo sempre, gente de diversas partes do mundo, e de diferentes grupos mostrando que, como em seu surgimento, a variedade em torno de um mesmo ideal faz surgir a capoeira autêntica, a nossa mãe Capoeira Angola!
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